sexta-feira, 8 de maio de 2015

Como viver uma vida sem amor



            Era uma vez, há muito tempo, um casal feliz que tinha dois filhos, um menino e uma menina. Naquela época, quando as pessoas nasciam, recebiam um saquinho cheio de carinhos. Por isso, todos tinham seu próprio recipiente de carinhos ao longo da vida.
           Sempre que a pessoa punha a mão no saquinho, podia tirar um Carinho Quente. Eles faziam as pessoas se sentirem felizes e protegidas, cheias de aconchego. Quem não recebia Carinhos Quentes se expunha ao perigo de pegar uma doença nas costas que fazia murchar e morrer.
           Era fácil receber Carinhos Quentes. Sempre que alguém queria, bastava ped-los. Colocando-se a mão no saquinho, aparecia um carinho do tamanho da mão de uma criança. Ao vir à luz, o Carinho expandia-se e transformava-se num grande Carinho Quente, que podia ser colocado no ombro, na cabeça, no colo. Então, misturava-se com a pele e a pessoa se sentia feliz.
            As pessoas viviam pedindo Carinhos Quentes umas às outras e nunca havia problemas para consegui-los, pois eram gratuitos. Por isso todos eram felizes e cheios de carinhos, na maior parte do tempo.
            Um dia, uma bruxa má percebeu que, sendo felizes, as pessoas não compravam as poções mágicas que ela vendia. Então, inventou um plano malvado. Certa manhã, chegou perto do homem, enquanto sua esposa brincava com sua filha, e cochilou no ouvido dele: “Olhe os carinhos que sua mulher está dando à sua filha. Se continuar assim, ela vai consumir todos os carinhos e não sobrará nenhuma para você” O marido ficou surpreso: “Quer dizer então que não é sempre que existe um Carinho Quente no saquinho?” A bruxa respondeu: “Exatamente. Eles podem acabar, e você não os ganhará mais”. Disse isso e foi embora, montada em sua vassoura, gargalhando muito.
            O marido ficou preocupado. Começou a reparar nos Carinhos Quentes que sua esposa dava às outras pessoas, pois temia perdê-los. E foi se queixar à esposa, de quem gostava muito. Ao mesmo tempo, resolveu parar de dar carinhos aos outros, reservando-os só para ela.
            As crianças perceberam e passaram também a economizar carinhos, pois entenderam que era errado andar distribuindo Carinhos Quentes por aí. E todos foram ficando cada vez mais mesquinhos.
            O resultado apareceu logo: as pessoas do lugar começaram a se sentir menos aconchegados. Cada vez mais gente ia à bruxa para adquirir ungüentos e poções. Algumas pessoas chegaram até a morrer por falta de Carinhos Quentes. Mas a bruxa não queria realmente que as pessoas morressem, porque, se isso acontecesse, deixariam de comprar as poções. Então, inventou um novo plano: todos ganhariam um saquinho muito parecido com o dos Carinhos Quentes, só que conteria Espinhos Frios. Os Espinhos Frios eram gratuitos e ilimitados, faziam as pessoas se sentirem frias e espetadas, mas evitavam que murchassem.
            Daí para frente, sempre que uma pessoa dizia: “Eu quero um Carinho Quente”, aqueles que tinham medo de diminuir seu suprimento respondiam: “Não posso dar-lhe um Carinho Quente, mas, se você quiser, cedo-lhe um Espinho Frio”.
            Com isso, os Carinhos Quentes foram ficando cada vez mais raros e valiosos. As pessoas tentavam de tudo para consegui-los.
            Antes do plano da bruxa, as pessoas costumavam reunir-se em grupos de três, quatro, cinco, sem se preocupar com quem estava dando carinho para quem. Depois que a bruxa apareceu, elas começaram a se juntar aos pares e a reservar seus Carinhos Quentes exclusivamente para seus parceiros. Quando se esqueciam e davam um Carinho Quente para outra pessoa, logo se sentiam culpadas. Quem não conseguia encontrar um parceiro generoso precisava trabalhar muito para comprar carinhos.
            Algumas pessoas tornavam-se simpáticas e recebiam muitos Carinhos Quentes sem ter de retribuí-los. Então, passavam a vendê-los aos que precisavam. Outras pegavam os Espinhos Frios, cobriam com uma cobertura branquinha e estufada, fazendo-os passar por Carinhos Quentes. Eram, na verdade, carinhos falsos, de plásticos, que causavam novas dificuldades. Por exemplo, duas pessoas juntavam-se e trocavam entre si, livremente, seus Carinhos Plásticos. Sentiam-se felizes durante alguns momentos, mas logo em seguida o bem-estar acabava. Como pensavam estar trocando Carinhos Quentes, ficavam confusas.
             A situação foi se tornando cada vez mais grave. Até que um dia uma mulher especial chegou ao lugar. Ela nunca tinha ouvido falar da bruxa e não se preocupava com o fim dos Carinhos Quentes. Entregava-os de graça, mesmo quando não eram pedidos. As pessoas do lugar reprovaram a atitude da mulher, pois achavam que ela transmitia às crianças a noção errada de que não deviam se preocupar com a possibilidade de os carinhos acabarem. Chamavam a mulher de Pessoa Especial.
            As crianças gostavam muito da Pessoa Especial, porque se sentiam bem em sua presença, e passaram a dar Carinhos Quentes sempre que tinham vontade.
            Os adultos ficaram muito preocupados e decidiram impor uma lei para proteger as crianças do desperdício dos Carinhos Quentes. A lei dizia que era crime distribuir Carinhos Quentes sem uma licença. Muitas crianças, porém, continuavam a trocar Carinhos Quentes sempre que tinham vontade ou quando alguém os pedia. Como existiam muitas crianças no lugar, parecia que elas prosseguiriam seu caminho.
          Algumas daquelas crianças cresceram e, quando adultas, ainda continuaram espalhando Carinhos Quentes de graça, Mas algumas não
            Aquelas crianças que cresceram se tornaram eu e você. Às vezes, agora como adultos, ainda nos lembramos de como é bom dar e receber Carinhos Quentes, mas às vezes ainda pensamos na lei da bruxa e acreditamos que ela ainda esteja em vigor. Será que você tem medo da bruxa? Ou já é uma Pessoa Especial?





*Adaptado do texto original de Claude Steiner.         

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